Mercado

Soluções que modernizam as lavouras

Fonte: Valor Econômico - 29/09/2017 29/09/2017

Foi em setembro de 2014, em plena crise, que a jovem Mariana Vasconcelos percebeu que tinha nas mãos uma inovação que poderia mudar a vida não só da fazenda da família, mas da agricultura como um todo. A Agrosmart, startup criada por ela e pelos sócios Raphael Pizzi e Thales Nicoleti, desenvolveu uma tecnologia de monitoramento do cultivo para melhorar a tomada de decisão, gerando um aumento de produtividade, redução de custos e economia de água de até 60%. Sensores são instalados nas áreas de cultivo captando dados das condições do solo, do vento, da temperatura, da umidade, do crescimento da planta, entre outros. Os dados são cruzados com imagens de satélite e resultam em relatórios que podem ser acessados em tempo real.

O negócio chamou a atenção de investidores, da Nasa e até da Casa Branca. A Agrosmart, com sede em Campinas (SP), é a única empresa da América Latina a integrar o programa Climate Ventures, criado pelo governo Obama para amenizar as mudanças climáticas do mundo, com um aporte de US$ 100 mil. “A plataforma entrou em operação no ano passado e já monitora mais de 80 mil hectares no Brasil, além de marcar presença na América Latina, Israel e Estados Unidos”, afirma Mariana. “O nosso viés inovador atraiu o secretário geral da ONU para o Programa de Mudança Climática e Objetivos Sustentáveis para o nosso conselho de administração.”

Com um faturamento estimado de R$ 10 milhões para este ano e 40 grupos agrícolas na carteira de clientes, a Agrosmart trabalha para até 2019 se tornar a plataforma de agricultura digital líder na América Latina. A probabilidade é grande, se levarmos em conta que o agronegócio precisa cada vez mais de tecnologia e o segmento de agritechs, como são  chamadas as startups de agro, cresceu 70% de 2015 para 2016, com previsão de triplicar até o final do ano.

“É um movimento que vem ganhando força nos últimos dois anos e já responde por 5% da base das 5.010 startups em atividade no país”, afirma Rafael Ribeiro, diretor executivo da Associação Brasileira de Startups.

Na visão de Luiz Gustavo Nussio, diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz (Esalq), “os centros de pesquisa começaram a direcionar seus esforços para atender às demandas do mercado, transformando o conjunto de papéis da prateleira em produto, em transferência de tecnologia”. Para isso, a Esalq introduziu o empreendedorismo em suas disciplinas de forma transversal. O resultado é um aumento nas chances de nascerem startups inovadoras e mais maduras em seus laboratórios.

Ex-pesquisador da USP, Antonio Morelli, depois de anos transformando pesquisa em ‘paper’, abriu em 2015 a Agronow, com sede em São José dos Campos (SP) e escritório na Argentina. “Com a ajuda de imagens de satélite, nosso sistema pode levantar dados de uma propriedade agrícola em qualquer época do ano”, diz. “Com apenas um comando é possível saber o que o agricultor produz, colhe e seu potencial de produção, projetando o futuro com intervalo de 90 dias e precisão de até 96%.”

“O investidor se assusta com a realidade das agritechs”, diz Rodrigo Perez, diretor da BR3, especializada em defensivos agrícolas. Foram anos até provar a eficiência de seus fungicidas e receber a aprovação dos órgãos reguladores. Com 100 clientes em carteira e previsão de faturamento de R$ 4 milhões, Perez diz que só persistiu porque é teimoso.

|Por Katia Simões | de São Paulo