Mercado

Brasil golpeia resultados das grandes múltis de defensivos

Fonte: Valor Econômico - 28/07/2017 28/07/2017

Hannelore Foerster/Bloomberg

Baumann, da Bayer: problema no Brasil

O elevado nível de estoques de defensivos nas revendas no país prejudicou os resultados globais das grandes múltis do segmento na primeira metade do ano. O problema foi provocado basicamente pela forte quebra da safra de grãos no ciclo 2015/16 – em lavouras de culturas como milho, arroz e soja perdidas com as intempéries causadas pelo El Niño, algumas aplicações de agrotóxicos simplesmente se tornaram desnecessárias.

Segundo estimativa da consultoria Allier Brasil, 2017 começou com estoques avaliados em US$ 1,4 bilhão. Nos cálculos da LSP Consultoria, 45% do volume de agrotóxicos vendidos no ano passado pelas indústrias no mercado doméstico não chegou ao campo. Mesmo em áreas que foram colhidas, a seca reduziu a necessidade de aplicação de fungicidas e, nesse cenário, os estoques nas redes de distribuição foram se acumulando. Com isso, nem a produção recorde deste ano, em meio a um clima quase perfeito – com umidade normal para o desenvolvimento de fungos e proliferação de pragas – foi suficiente para desová-los.

A extensão do problema apareceu com todas as cores no balanço de resultados divulgado ontem pela alemã Bayer . De acordo com a empresa, as vendas no Brasil no segundo trimestre do atual exercício foram € 428 milhões menores que no mesmo período de 2016. Ao Valor, o presidente interino da Bayer CropScience Brasil, Gerhard Bohne, revelou que houve um planejamento junto aos distribuidores para ampliar as vendas na safra 2016/17, mas que, por “fatores que fugiram ao nosso controle”, a demanda foi menor.

Com o incremento dos estoques nas distribuidoras, a companhia teve que fazer provisões elevadas devido à expectativa de devolução de produtos parados ou com validade eventualmente vencida. Os produtos normalmente são faturados apenas quando os agricultores os compram nas lojas. Com as provisões, as vendas reportadas pela Bayer na América Latina foram negativas em € 69 milhões no segundo trimestre.

Em teleconferência, Werner Baumann, CEO global da empresa alemã, lamentou o problema no Brasil e reforçou que uma estratégia está em curso para revertê-lo. Liam Condon, diretor da Bayer CropScience, disse que há produtos em estoque para cerca de dois a três anos. No Brasil, a múlti tem produtos espalhados com cerca de 400 distribuidores.

Os estoques elevados também pressionaram o desempenho da suíça Syngenta, controlada pela chinesa ChemChina. A companhia informou, quando divulgou seus resultados, que, além do aumento de estoques, as vendas na América Latina também sofreram com os preços mais baixos de algumas commodities. No primeiro semestre, as vendas globais da múlti caíram 2,5%, para US$ 6,9 bilhões.

Outra a reclamar dos estoques no Brasil foi a Basf. Ontem, Hans-Ulrich Engel, diretor financeiro da companhia alemã, também reconheceu, durante teleconferência, que o volume ficou acima do esperado na primeira metade do ano no país. “O mercado brasileiro tem sido particularmente difícil. Está superabastecido”, afirmou ele.

“O declínio das commodities foi outro motivo que pressionou vendas e margens”, disse Flavio Hirata, da Allier Brasil. O consultor lembrou que muitos agricultores evitaram vender suas colheitas de soja e milho e, além de atrasar as compras de insumos para a safra 2017/18, têm barganhado preços menores. “É a lógica do modelo, e a indústria está desesperada para vender”, afirmou.

Jim Collins, diretor da divisão de agricultura da americana DuPont, outra a reportar resultados esta semana, pontuou, em teleconferência sobre o desempenho segundo trimestre do ano, que as atuais cotações de soja e milho, menos remuneradoras que no passado, de fato gerou um atraso nas compras de insumos para a safra de grãos 2017/18, cujo plantio terá início em setembro. O executivo afirmou que a expectativa de redução da área de milho cultivado no verão também poderá afetar as vendas defensivos neste terceiro trimestre. Mas Collins ponderou que os estoques começaram a diminuir.

“Acredito que a situação voltará ao normal somente entre 2018 e 2019. Mas é inegável que o ano que vem será melhor para essa indústria”, afirmou Ricardo Rodrigues, da LSP Consultoria.

Por Kauanna Navarro | De São Paulo