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Quais são os riscos de fazer uma produção on farm de biopesticidas e bioestimulantes?

07/08/2019

on-farmA produção on farm ou caseira de biopesticidas consiste na multiplicação de organismos vivos na propriedade rural para uso no controle de pragas da lavoura. 

Essa prática está no contexto do controle biológico que, juntamente com outros métodos de controle, como os defensivos químicos, faz com que agricultura seja ainda mais sustentável. Além disso, a produção on farm envolve também multiplicação de microrganismos que fixam nitrogênio no solo e estimulam o desenvolvimento das plantas (bioestimulantes).

O processo de produção caseira, por não ter o controle de qualidade e equipamentos industriais, apresenta riscos de contaminação por microrganismos não desejáveis. Estes podem ser prejudiciais para a lavoura ou até mesmo contaminar os alimentos que estão sendo produzidos.

Bactérias mais produzidas on farm no Brasil

Pelo menos seis bactérias estão sendo produzidas on farm no País:

  • Bacillus subitillis: para controle de doenças fúngicas;
  • Bradyrhizobium: para fixação de nitrogênio;
  • Bacillus thuringiensis: para controle de lagartas;
  • Azospirillum brasilense: para fixação de nitrogênio e como bioestimulante;
  • Bacillus pumilus: para controle de doenças fúngicas, bacterioses e nematoides;
  • Bacillus methylotrophicus: para controle de nematoides.

Dentre essas, destaca-se a bactéria Bacillus thuringiensis (Bt), caracterizada pela capacidade de produzir proteínas com propriedades inseticidas. Essas proteínas são tóxicas para várias espécies de insetos, porém, consideradas seguras para mamíferos.

Produção on farm de Bacillus thuringiensis

No caso da produção de biopesticidas à base de Bt, seja em laboratórios, biofábricas “on farm” ou nas empresas de grande porte, é necessário observar rigorosas normas segurança e eficácia. Por se tratar de um microrganismo, sua produção em condições inadequadas de multiplicação, pode resultar em baixa qualidade. Nessas circunstâncias, podem estar contaminados e causar danos ao ambiente e à população em geral.

Para que esses riscos sejam minimizados, existem recomendações técnicas  fornecidas por profissionais especializados. Essas recomendações apontam procedimentos para produção e controle de qualidade de biopesticidas à base de Bt. Essas recomendações técnicas exigem um controle de qualidade viável apenas para a produção industrial. Isso porque o processo tem alto nível de complexidade, exige equipamentos de última geração e profissionais altamente gabaritados. Esses fatores fazem com que a produção produção on farm não seja uma alternativa segura.

Riscos da produção on farm de biopesticidas 

Normalmente, na produção on farm, os bioinseticidas são armazenados em tanques metálicos, caixas d’água ou baldões a céu aberto, sem isolamento. Esses recipientes não são adequados pois suas aberturas facilitam a contaminação. Se o processo de fermentação está em contato com contaminantes, este fator inviabiliza o uso do produto final na forma de pulverização, gerando, inclusive, mau cheiro.

Os perigos trazidos pelos contaminantes são mais evidentes na produção caseira uma vez que normalmente são utilizados produtos não esterilizados e fermentadores inadequados. Ademais, os contaminantes podem se multiplicar ainda mais rápido do que os agentes biológicos de interesse. 

Dentre os riscos acarretados pela produção de biopesticidas on farm o maior deles é a contaminação do caldo de fermentação com microrganismos patogênicos ao ser humano. Além disso, em condições inapropriadas de produção, o agente biológico pode apresentar baixa concentração dos princípios ativos que controlam os insetos.

Um estudo realizado pelo pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo Fernando Valicente, demonstrou que amostras de biopesticidas produzidos em propriedades rurais no Mato Grosso apresentaram contaminação por diferentes espécies de bactérias. Dentre elas, Enterococcus casseliflavus e Enterococcus gallinarum, que têm sido associadas à endocardite e meningite em humanos.