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Controle Biológico: estratégia que agrega sustentabilidade à agricultura

02/09/2019

 

controle biológico internaO controle biológico surge como uma estratégia que entrega produtividade aliada a uma agricultura sustentável. Ele proporciona maior tranquilidade para a sociedade que está cada vez mais preocupada com forma com que os alimentos são produzidos.

Controle biológico no século XXI

O controle biológico consiste na potencialização do uso de organismos ou de substâncias de ocorrência natural para prevenir, reduzir ou erradicar a infestação de pragas e doenças nas plantações.

Em função da sua natureza, os produtos biológicos de controle podem ser categorizados como:

  •   Macro-organismos: insetos, ácaros e nematoides que parasitam e predam pragas.
  •   Microrganismos: bactérias, fungos, vírus e que infectam e eliminam organismos que desfavorecem a produtividade da lavoura.
  •   Bioquímicos: extratos de plantas, algas, enzimas e hormônios que tem efeito estimulante e induzem resistência na planta.
  • Semioquímicos: metabólitos associados à comunicação de organismos e utilizados em armadilhas para pragas (feromônios).

A incorporação do controle biológico na agricultura complementa o Manejo Integrado de Pragas (MIP) e traz benefícios ao produtor, consumidor e também ao meio ambiente, como:

  • Redução na aplicação de defensivos químicos;
  • Redução no número de pragas resistentes;
  • Menor concentração de resíduos químicos nos alimentos;
  • Maior especificidade contra pragas;
  • Restabelecimento de organismos benéficos na lavoura.

Além disso, a utilização dos produtos biológicos de controle atendem a seis dos dezessete Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) adotados durante a Cúpula das Nações Unidas de Desenvolvimento Sustentável em 2015, são eles:

  • Erradicação da pobreza, por meio da geração de renda no campo;
  • Fome zero e agricultura sustentável, mediante a alimentação saudável e a promoção da produção sustentável e do mercado de alimentos orgânicos;
  • Boa saúde e bem-estar, por meio de uma vida saudável, com a alimentação de produtos sem resíduos;
  • Consumo e produção responsáveis, mediante o controle de pragas nas plantações de modo natural;
  • Ação contra a mudança global do clima, com menor uso de combustíveis fósseis;
  • Proteção, recuperação e promoção do uso sustentável dos ecossistemas terrestres, detendo a perda de biodiversidade.

Os produtos biológicos de controle

Existem diferentes produtos dentro do controle biológico e que são categorizados de acordo com a origem dos seus ativos biológicos, presentes em sua formulação. Esses ativos biológicos são representados pelos organismos vivos (agentes biológicos de controle) ou por substâncias naturalmente produzidas por esses organismos.

São considerados agentes biológicos de controle: vírus, bactérias, fungos, nematoides, insetos, ácaros, algas e plantas. Dentro das substâncias extraídas e utilizadas na lavoura, e que fazem parte do controle biológico, estão: os hormônios, enzimas, feromônios e outros metabólitos naturais.

produtos biológicos de controle

No Brasil, os ativos biológicos mais utilizados, nos anos 2017/2018, foram:

  • Vírus da família Baculoviridae conhecidos como Baculovirus;
  • Diversas espécies da bactéria Bacillus sp.;
  • As espécies de fungo Beauveria bassiana, Metarhizium anisopliae, Paecilomyces lilacinus, Pochonia chlamydosporia e outras pertencentes ao gênero Trichoderma; 
  • Os insetos Cotesia flavipes e Trichogramma galloi.

A formulação dos produtos biológicos de controle

O desenvolvimento de produtos biológicos de controle começa na identificação da ação de ativos biológicos contra praga e doenças. Essa atividade pode ser observada ocorrendo no meio ambiente de forma natural ou prospectada em laboratório contra alvos específicos.

A partir desse conhecimento são definidos as propriedades que o produto precisa apresentar para entregar o ativo biológico de forma controlada e eficiente na lavoura. São desenvolvidos processos para a multiplicação dos agentes biológicos em ambientes controlados.

A formulação de produtos biológicos de controle é desenvolvida com o objetivo de aumentar sua eficiência, viabilizar o transporte, estender o tempo de armazenamento e melhorar a forma de aplicação.

Produtos a base de agentes biológicos de controle devem manter alta taxa de sobrevivência do agente biológico ou de suas estruturas de reprodução, apresentando alto grau de pureza. Além disso, os produtos passam por testes toxicológicos e de patogenicidade.

Um exemplo são os produtos desenvolvidos com esporos (estrutura de reprodução) do fungo Trichoderma (ativo biológico) que possuem veículos inertes em sua formulação. Essa tecnologia protege o agente biológico contra altas temperaturas e radiação ultravioleta, auxiliando também na pulverização do produto em campo.

O número de empresas especializadas em produtos biológicos de controle tem aumentado, dados oficiais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento mostram que o número de empresas de produtos biológicos de controle duplicaram nos últimos cinco anos. Dessa forma, espera-se uma maior oferta de produtos com ativos biológicos.

Regulamentação do Controle Biológico

Assim como nos defensivos químicos, os produtos biológicos de controle também necessitam de conhecimento técnico especializado, uma vez que fatores bióticos e abióticos podem interferir nos resultados. Além disso, por se tratar de organismos vivos, é importante a utilização de equipamentos de proteção individual (EPIs) para evitar qualquer tipo de contaminação.

No País, o atual marco regulatório de produtos biológicos de controle pertence à mesma legislação dos agrotóxicos convencionais (defensivos químicos) – Lei 7.802 e Decreto 4.074. Isso ocorre porque a definição de agrotóxicos é:

“Consideram-se agrotóxicos e afins os produtos e os agentes de processos físicos, químicos ou biológicos, destinados ao uso nos setores de produção, no armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção de florestas, nativas ou implantadas, e de outros ecossistemas e também de ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos”.

Apesar das diferenças, o registro de um produto biológico de controle, segue praticamente o mesmo padrão de exigência dos agrotóxicos. Necessitando atender requisitos de segurança da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

A diferenciação dos produtos de origem biológica se dá por meio de Instruções Normativas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA, que dispensam os ativos biológicos de algumas exigências específicas de produtos de origem 100% química.

Controle biológico na saúde humana

As plantas não são os únicos alvos de pragas, muitos insetos são disseminadores de doenças em humanos, exemplo do Aedes aegypti (transmissor da dengue), o Anopheles darlingi (transmissor da malária) e os insetos da família Simuliidae, conhecidos como “borrachudos” que causam alergias em seres humanos e animais.

Para combater esses insetos já existem produtos biológicos de controle (inseticidas biológicos ou bioinseticidas) formulados a partir de Bacillus thuringiensis,  uma bactéria com ação específica para controlar larvas desses insetos que não impacta na saúde humana, de animais e ao meio ambiente.

Os produtos desenvolvidos no Brasil são utilizados em campanhas de saúde em diversos municípios brasileiros, com objetivo de eliminar as larvas e diminuir a proliferação dos insetos.

Controle biológico no manejo integrado de pragas

O controle biológico é indispensável no programa de Manejo Integrado de Pragas (MIP), pois combina práticas culturais e químicas para a gestão da resistência, com reais ganhos na produtividade.

Por meio de seus modos de ação, os produtos biológicos de controle são altamente específicos para a praga alvo. Isso permite a manutenção de insetos benéficos à produção (predador natural) e diminui a dependência de mais agroquímicos.

Com o aumento da adoção dos produtores pela prática do MIP, espera-se um crescimento ainda maior pela busca por produtos biológicos de controle, que são indispensáveis para o funcionamento adequado desse sistema de manejo.

Marcos do controle biológico